Não Procures o Propósito. Deixa Que Te Encontre.

Updated: Apr 5

Procuras propósito na tua vida? Se é o caso é porque te falta qualquer coisa.

Não propósito – mas equilíbrio.



Talvez sejas alguém que há muito tempo que tenta determinar aquilo que quer fazer da vida.


Talvez sejas alguém que se sente preso a um trabalho que já não lhe satisfaz e, olhando para trás pensas ter feito algures a escolha errada.


Ou talvez sejas alguém que sustenta um estilo de vida mais extravagante e no entanto não sentes gratificação com o que fazes.


Talvez te sintas entediado e penses – a vida tem de ser mais que isto!

No entanto tens dificuldade em encontrar uma resposta.


Mas não deveríamos nós procurar a causa deste conflito ao invés da solução?


A causa pode dever-se aos sistemas sociais e à influência que estes têm na forma como levamos a cabo a nossa vida. Na forma como nos estabelecemos numa sociedade que nos pesa pela exigência e competência.


No meio de todo o esforço para ocupar um papel de cidadãos e na tentativa de nos encaixarmos na sociedade, vamo-nos afastando da nossa essência, perdendo a inocência e também a conexão com a nossa intuição.


A intuição é um instrumento poderoso. Um sistema de navegação que nos orienta com precisão ao longo da vida. Se perdemos a habilidade de interpretar as mensagens vamos andar à deriva.


Tal pode acontecer em qualquer altura da vida e independentemente da carreira que se escolhe.


Mas porque estamos a perder contacto com a nossa intuição? E quais são as consequências?


A resposta mais directa será porque andamos demasiado ocupados. E andamos tão ocupados que nem notamos que esta situação está a decorrer. Vivemos absorvidos com ocupações que muitas vezes nos causam stress, preocupação, dívidas, ansiedade ou doença.


O cidadão de hoje vive o seu dia a dia num estado de quase constante inconsciência, mecanizado pelas suas obrigações e desconectado do seu ser. Por diversas razões.


Deixa-se distrair por materialismo ou ganância. Deixa-se influenciar pelo o que os outros querem, pedem ou exigem de si.


Deixa-se influenciar pelo o ambiente em que vive, por relações tóxicas, excesso de trabalho, stress, fadiga; por falta de orientação ou auto-estima, falta de confiança, um ego traiçoeiro; ou simplesmente o medo de não ser suficiente.


Consequentemente, quando os planos não correm como é de esperar, não só tem tendência para se conformar como se torna pouco critico face aos resultados, aceitando qualquer coisa, esperançado que tal o satisfaça de igualmente maneira.


Talvez porque pense ser o melhor que irá conseguir ou porque inevitavelmente não conseguirá fazer melhor. Ou talvez por achar que não há outras opções.


Sujeita-se àquilo que aparenta ser o que procura, mas que, se na realidade acaba por se revelar falso, este fecha os olhos num acto simplista.


Com o decorrer do tempo, estando financeiramente estável ou não, a motivação desvanece e torna-se enfadado, cansado e desapontado. A rotina consome a sua alegria e fica infeliz. Por vezes doente.


Infeliz arrasta-se dia após dia, ansiando pelo fim de semana, as férias. O domingo deprime-o secretamente, ressente-se do trabalho, não tem paciência para os que estão à sua volta, torna-se irritadiço e ansioso, e pior, castiga-se deixando-se ficar onde está.


Geralmente temos tendência para nos sacrificar pelos outros, em troca de segurança, ou uma relação, conforto… mas confundimos estes com propósito, ou até com destino.


Não deixam de ser objectivos válidos mas em si mesmos não traduzem harmonia, felicidade ou paz interior. Além de que há também mais opções, se formos corajosos de as considerar.


Primeiro temos de alcançar um lugar de verdade. Temos de perceber quem somos realmente, compreender a nossa natureza, abraçar os nossos defeitos e imperfeições. Ser gentis com as nossas perspectivas, raciocínio e a nossa história.


Devemos aceitar e amar-nos como somos e a situação em que nos encontramos. Se não o fizermos estamos a ignorar e a desrespeitar os nossos limites que por sua vez vai forçar nas nossas vidas situações e pessoas que preferíamos não enfrentar.


Nós permitimos que nos sejam totalmente consumidas a energia, a alegria e até a saúde. Deixamos que nos prendam, nos roubem a visão, a esperança e por fim a coragem.


E no desespero procuramos ao invés aquilo que compensa o vazio, que entorpece, que é fácil e torna tudo o resto momentaneamente suportável - satisfação instantânea.


No entanto, simultaneamente vai camuflar e roubar a nossa atenção da situação, tornando a vida um pastiche triste com que nos reconciliamos, vendo o mundo à nossa volta através dos olhos de um menino de madeira em vez do real.


Satisfação instantânea tem vindo a atuar como uma rede de segurança. Não temos o que queremos mas pretendemos que sim. Pior, é que muitas vezes não percebemos que é a nós próprios que este engano prejudica mais.


Vamos vivendo iludidos, não medindo esforços para tornar este engano digno e genuíno. Porque precisamos realmente de amor, alegria, segurança e conforto e muitas vezes é o melhor que sabemos.


Mas procurar em factores externos a nós, que não combinam com a nossa natureza, trará decepções e angustia. Não nos resolve os conflitos internos e não nos deixará evoluir. Não serão então um pouco inúteis esses esforços?


Porquê levar uma vida sem evolução? Porquê ficar estagnado, sofrendo, quando podemos expandir as nossas noções, desenvolvimento pessoal e as variadas maneiras de estar e viver neste planeta?


Não mais acordamos de manhã e questionamos ‘o que é que me apetece fazer hoje?’ E não mais nos damos permissão para honrar essas vontades.



Eu tive vários trabalhos ao longo da minha vida até agora. A maior parte numa cidade que não dorme e onde vivi largos anos, em Londres.


Estudei fotografia, filme e video, representação e algumas línguas. Trabalhei como assistente numa biblioteca, como agente de ‘new business’, gerente de projectos e de uma produtora de filmes, coordenadora de eventos, recepcionista, assistente editorial de fotografia e video, professora, empregada de mesa e assistente pessoal de pessoas com paralisia.


Estas experiências fazem parte de uma viagem em que me venho a desenvolver como adulta. Acima de tudo fazem parte de uma procura pessoal de prosperidade e segurança, idealmente fazendo o que mais gosto.


No entanto à medida que o tempo foi decorrendo, vim a perceber que certos cargos não eram compatíveis comigo, ou vice-versa, e que também não era apreciadora da rotina forçada (e tal não faz de mim indolente ou desleixada – um à parte que não posso deixar de mencionar…).


A vida na cidade era frenética, divertida mas também dura. Sentia sempre uma leve sensação de não estar a fazer o suficiente, apesar de, como toda a gente, passar os dias a trabalhar.


Embora tivesse gostado de passar por estas experiências sentia que ainda não tinha encontrado a tal ocupação que me faria feliz para sempre… Pensei para mim própria que provavelmente estaria destinada para algo diferente.


Mais tarde percebi que não era esse o caso. Eu sofria um desequilíbrio físico, emocional e espiritual. O ambiente onde vivia desgastava-me mas sustentava igualmente o meu ego.


Desconectei-me aos poucos da minha essência que por sua vez foi gerar confusões na forma como entendia aspetos da minha vida e até de mim própria.


Estava focada no que o meu ego insistia que obtesse, enquanto evitava as mensagens do meu corpo, tão claras, pedindo para que enfrentasse a realidade ignorada - o que estava a viver não era mais o que eu queria para mim! Tinha que haver uma mudança.


À medida que fui passando mais tempo mergulhada na natureza, para mim um verdadeiro santuário para a cura, apercebi-me do que realmente procurava.


Não era um propósito mas uma conexão mais profunda comigo mesma e o mundo à minha volta no seu estado natural.


Estava à procura do lugar onde vivemos intuitivamente, respeitando as nossas vontades sem a pressão insistente de certos factores externos.


Queria focar-me no presente ao invés de me preocupar com o futuro. Queria parar e ser livre para contemplar beleza e o ritmo natural de todas as coisas.


Eu queria um estilo de vida mais pacato e isso foi difícil de admitir a mim própria.



A maior parte das pessoas sofre em silêncio, anulando-se a si mesmas para não desafiar crenças implementadas pela sociedade, pela família ou a educação que tiveram.


É demasiado difícil contestar o que por toda a nossa vida nos foi imposto e alimentado.


No entanto, assim que conseguimos distanciarmo-nos dessa ordem, passamos a ser capazes de reavaliar tudo o que até então tomávamos como verdades absolutas, à cerca do mundo, da

sociedade e até sobre nós próprios.


Quando nos ouvimos de forma activa tudo muda automaticamente. Tornamo-nos mais atentos, conscientes, pacientes e gentis.


Estamos conectados conosco mesmo e entramos em harmonia com o mundo exterior e os outros. Tornamo-nos novamente alegres, vibrantes, repletos de energia e vitalidade.


Quando pensamos em propósito percebemos que este não é uma resposta estática mas sim a combinação de vários factores. Factores esses que já estamos a experienciar, como que por milagre, e que se encaixam na perfeição com o que desejamos.


E não tivemos de lutar para tal, simplesmente aconteceu, foi ganhando forma. Olhamos para trás e reconhecemos que fomos levados até este lugar naturalmente e sem esforço. Ninguém nos guiou até ali.


Simplesmente seguimos o que nos fez sentido. Simplesmente explorámos o que nos despertava curiosidade. Simplesmente nos servimos da informação que nos era dada, deixando que a nossa sabedoria interior nos guiasse.


Não precisamos de seguir um só caminho nas nossas vidas. Somos livre de mudar de rumo sempre que for benéfico para nós. Podemos praticar e aprender várias coisas, idealmente ao longo da vida.


Longe vai o tempo em que seguíamos uma carreira por anos a fim. Há tanto ainda para ser explorado e descoberto.


Propósito é uma forma de estar na vida. Entrega-te à tua natureza, respira fundo e ouve o que o teu intimo te diz.


Haverá uma resposta que pode bem não ser o que esperas. Pode não ser a mais fácil de aceitar mas é esse o começo de uma viagem a caminho da honestidade.


As pessoas jogam constantemente pelo seguro, pelo que é razoável. Mas para quê se for para permanecer inalterado? Não te conformes. Nota que a vida é realmente mais do que isto.


Desafia o teu pensamento, as tuas percepções. O que deve mudar? Ouve o teu corpo e compreende que ao fazê-lo estás a reescrever a tua história definindo novos caminhos.


Quando conseguires dar voz e ação às tuas vontades, entrares em equilíbrio, tudo o resto se encaixa no sitio. Tudo o que fazes te dá prazer e sentir-te-ás gratificado pois são escolhas conscientes e honestas.


A sensação ingrata de que algo te falta é substituída por uma joi de vivre e uma certeza que te mantém realizado.


Notarás então de que estás a viver o teu propósito, no sentido em que és tu que o constróis continuamente.


Em gratidão, Mariana