Fases Transitórias – Ponte Para Uma Outra Evidência

Updated: Apr 5

Fases transitórias. Apesar de desagradáveis e difíceis, considero-as tão importantes.


Não nos é habitual rever o seguimento das nossas vidas. Por vezes durante anos… Vivemos evitando a mudança com a falsa ideia de que controlamos o que não muda e que tal nos mantém em segurança.



No entanto este conceito em nada nos beneficia. Permanecemos acomodados ao que nos incomoda ignorando os sinais de que a situação não se resolverá até que decidamos lidar com ela.


Mas de facto permanecer indiferente ou inflexível é irrealista, e a meu ver vai contra a nossa natureza.


É apenas em momentos de consciência ocasional, se tivermos a coragem de nos questionarmos, que ficamos surpreendidos por notar que, afinal, a nossa vontade atual é outra. Que o que desejamos agora é diferente daquilo que por tanto tempo lutámos para que se tornasse parte de nós.


Estas são respostas que nos confrontam com um facto indesejável mas que tem o poder de nos impulsionar para algo novo. Um tanto imprevisível.


Escrevo um blog pela primeira vez; que coincide com uma das maiores mudanças que fiz conscientemente na última década.


Depois de quase treze anos a viver fora, numa cidade que aos poucos se foi tornando minha, de repente senti-me deslocada. E que estranho foi sentir descontentamento e insatisfação depois de tantos anos numa cidade que me alimentava o entusiasmo.


Ao longo desse anos fui construindo um cenário ideal, cuja familiaridade me mantinha confiante, assertiva e segura.


Mas como foi acontecendo, uma e outra vez, observadora das minhas emoções, fui-me apercebendo que afinal, este era um contexto que já não abraçava as minhas vontades, pelos vistos novas.


E tal apanhou-me de surpresa. Talvez ingenuamente, mas o que é certo é que não antes me tinha passado pela cabeça que tais convicções, as que tinha sobre mim própria, pudessem a vir alterar-se tão profundamente.


E assim foi. A realidade que conhecia deixou de ser evidente e eu questionei – seria suposto agora procurar ainda algo diferente? Senti que sim.


De certa forma, depois de tantas experiências vividas, uma coisa eu sabia - e é que nada é estático. Tudo está em constante mudança; até mesmo nós, mesmo tão subtilmente.


E abraçar este facto leva-nos com certeza a viver fases transitórias. Claro. E é também este facto que nos devolve ideais ou sonhos esquecidos ou nos traz outros, novinhos em folha, de deixar cair o queixo.


Eu, à medida que escrevo este texto, já me encontro noutro lugar diferente daquele. Um lugar onde tudo é agora imprevisível. Mudei de cidades. Transitei.


Certamente deveria dizer que voltei para casa, no meu país. E teoricamente sim. Mas na realidade é mais complexo que isso. O conceito casa mudou tanto… foi diferente em tantos sítios que já não torna a ser o mesmo.


Voltar para casa não é sinónimo de voltar para onde pertenço, no sentido em que não podemos ‘pertencer’ apenas só em casa. Pergunto-me até, se é suposto pertencermos a lado algum? E será verdade que a liberdade nos recebe onde supostamente pertencemos?


Eu mudei. Tanto. E mais do que tudo o resto que me rodeia. Os conceitos das coisas mudam também. Haverá sítios que foram a minha casa e haverá outros que deixarão de ser.


Encontro-me no meio. Sentindo-me de certa forma sem casa mas ao mesmo tempo grata pelo amor daqueles que me acolhem, e pelas infinitas possibilidades que apenas o ‘não pertencer’ a lado algum me poderia dar.


Portanto… A fase transitória! Aquela que redefina tudo. Sendo constrangedora pode ser em simultâneo libertadora… O desapego dos sítios, dos pertences, das ideias… permitindo uma nova mentalidade sem o peso de tudo o que me construiu.


Não precisamos carregar aos ombros tudo isso. A minha história e as minhas experiências são importantes, justificam as minhas atitudes, mas o que realmente me define são os meus valores e as ações, as que tenho para comigo e com os outros.


De forma que é bom conseguirmos reformular novos conceitos, ser curiosos, imaginativos e até espontâneos com o trajectória da nossa vida. Conhecer outros caminhos, outras hipóteses, mantendo-nos fieis a nós próprios.


A fase transitória é mais complicada se nos agarramos àquilo que já não nos serve. Se a nossa mente insiste em resistir à mudança que já está a acontecer em nós.


Na maior parte das vezes, se nos encontramos em tal situação é porque crescemos já demasiado e ultrapassámos os limites de uma concepção desatualizada; desejamos um novo desafio que nos faça progredir naturalmente. Talvez seja essa a nossa sabedoria interior a cutucar-nos para nos mexermos.


Apesar da vulnerabilidade, ao sair da zona de conforto, quebramos barreiras e criamos oportunidades. Reformulamos novos parâmetros de vida, novas noções, alargando o leque de escolhas e dai novas perspectivas ganham forma.


E tal nos encaminha com certeza para sitios alegres e mais apetecíveis. Eventualmente é lá que vamos dar.


De momento talvez me encontre num limbo, e o desenlace dos eventos, e os próprios eventos que se desenrolam são incertos. Mas estou convicta da decisão tomada assim como das restrições que estar deslocada provoca.


Sou paciente. Sinto liberdade na cabeça. Alívio por me render. Sinto-me desperta por explorar. Não sabendo ainda o que procuro, não é bem esse o motivo da exploração, simplesmente estou aberta ao que possa vir, ao desconhecido. E quão excitante isso é! E todas as possibilidades que representa…


Devagar o rumo começa a definir-se, e o que nós queremos ganha forma e nós ganhamos foco.

Se te encontras numa fase transitória, entende que ai estás por um motivo. Por uma chamada mais sábia vinda do teu interior. Confia que estás no sitio certo e que algo se revelará para ti.


Através de ti.


Quando foi a última vez que te questionaste se algo tinha que mudar?


Que mudanças tens feito conscientemente?


Como está a afetar a tua vida? Estás a ter benefícios?


Mudar é bom.


Leva-te, se não a uma resposta, a uma forma nova de estar que acordará partes de ti que tinhas esquecidas ou que não sabias que ai estavam.


Essas fazem ainda parte de ti, por isso abraça-as, ouve-as e deixa que o teu instinto te guie sem medos. Se fores totalmente honesto contigo próprio vais sempre saber o que precisas para seguir em frente.


Tudo está bem.


Mariana