Dolce Fare Niente - A Arte de Fazer Nada

Não é comum saber “fazer nada”. É uma arte difícil para o ser humano pois o desafio de estar quieto é… monumental!



Conseguimos parar o corpo mas dificilmente a mente. Quando paramos é para nos distrairmos com qualquer tipo de informação ou entretenimento.

É bom ler um livro, ver um filme ou jogar o nosso jogo preferido no pouco tempo que temos livre.

Mas a capacidade de fazer nada é outra. Não é simples. Está rodeada de julgamento e refere-se a um estado mental mais do que a uma sesta.



Gosto de comparar este estado a um estado de contemplação. Acontece por vezes acidentalmente quando estamos de férias.


Sentados na areia, ao fim do dia, quando o tempo está quente e a praia a ficar vazia, deixamo-nos levar.


Respiramos fundo ao pôr do sol, reconfortados pelos dias longos e preguiçosos, livres de preocupações e à mercê de vontades mais expontâneas que trazem diversidade e excitação à nossa vida, sobretudo rotineira.


É graças a estes momentos pontuais, em conjunto com o descanso físico, que geralmente nos sentimos de energias renovadas ao fim de umas férias.


Estes momentos solitários, de simples existência, de mente serena, não intrusiva, de harmonia e uniformidade com os elementos que nos rodeiam, são momentos de stress reduzido, que incentivam o nosso bem estar, elucidam questões pertinentes e inspiram decisões difíceis.


Eis a sua importância.


Mas então porque é apenas nas férias que nos permitimos desligar?


Seria benéfico para a nossa saúde em geral converter estes momentos de união e conformidade em escolhas conscientes que vão dar resposta a necessidades cruciais para o nosso bem estar.


Porquê que tal não acontece?


A resposta mais simples é porque somos duros com nós próprios. Demasiado duros.


Não nos permitimos a estados contemplativos ou de introspeção porque temos demasiado que fazer ou não queremos ser confrontados com qualquer tema desconcertante.


Estamos enterrados em responsabilidades, obrigações, expectativas que geralmente não são nossas, mas que não podem ser ignoradas pois não queremos ser julgados.



‘O que eu espero de mim própria é meu dever.’


É nesta imposição que perdemos a oportunidade de contemplar a nossa beleza interior e a simplicidade da liberdade.


Somos claro responsáveis por quem nos tornamos, mas deveria isso ser um dever? Não deveria essa transformação ser uma expedição livre ao centro do eu?


O certo é que esta imposição, que poderia ser inocente não fosse a pressão que infligimos a nós próprios, acaba por nos tornar prisioneiros de uma ideia que geralmente é concebida, não por nós, mas por outros ou a sociedade em que vivemos.


O que é ‘o meu dever' nada mais é que o dever que tenho para com os outros e uma busca pela sua validação. Por isso ‘o dever’.


Algures no caminho do desenvolvimento pessoal, satisfazer o outro - ou o que é esperado de mim, tornou-se o foco principal. Este desenvolvimento é em prol de outrem, não em prol de nós mesmos.


As nossas obrigações tornaram-se para com os outros. ‘Eu tenho obrigação de ser um bom trabalhador, de ser uma boa mãe, de ser um bom marido, uma boa amante, um bom amigo, uma boa filha, um bom estudante, um bom ouvinte….’


É verdade que queremos cuidar dos outros e devemos proteger quem amamos, mas de uma forma sensata; que não nos leve ao limite das nossas capacidades físicas e emocionais. E acima de tudo - com a nossa verdade em punho.


Porque no meio de tudo isto, onde está o dever de respeitar e ouvir as nossas necessidades pessoais? Porque é que a atenção está sempre voltada para o outro? Para fora? Porque há tão poucos momentos de foco em nós próprios?


Onde foi que no caminho da nossa história nos descentralizámos e deixámos que fossem outros a determinar o que é o mais seguro ou melhor para nós?


Negligenciamos as nossas verdades para que outros estejam confortáveis, sem medo por nós, sem correr o risco do imprevisto.


O imprevisto torna-nos mais resilientes.


Como se criou tanta confusão? E porque achámos que não teria repercussões?


Estas repercussões afectam directamente quem tentamos proteger, incluindo ironicamente os que nos querem proteger a nós…



Mas mais sábia é a natureza. Mais sábio é o nosso corpo que faz parte dela. As mensagens aparecem. A nossa própria natureza a ajudar-nos a compreender que temos de trazer o foco de volta. De volta para nós.


É preciso perceber que para podermos cuidar dos outros temos primeiro que saber e cuidar de nós próprios.


A natureza esforça-se para nos fazer ouvir. E nós insistimos em ignorá-la. Até que há um ponto de ruptura.


O ponto onde nos encontramos agora é um exemplo. Hoje somos obrigados a parar. A nível global a natureza força-nos a fazer um “time out” colectivo.


Temos de ouvir, agora com mais atenção. Hoje temos a oportunidade de ficar quietos, de reflectir, sem que haja julgamentos. Podemos trazer o foco para nós próprios.


O que podemos cada um de nós aprender com esta quietude?


Que sítios podes tu visitar dentro de ti que há tanto estão esquecidos? Porque não oferecer um momento à tua mente para deambular onde quer?


É preciso desligar. Uns minutos que seja. É preciso estar contigo mesma, seja num banho de imersão, na varanda, no sofá, a olhar o tecto, ou de olhos fechados.


Há que parar e contemplar. Objectos, animais de estimação, o céu. Plantas. Os teus filhos, as tuas mãos. A música do espaço que ocupas.


Contemplar as tuas memórias. Fazer uma viagem no tempo e pensar nas melhores memórias de cada década. Nota como esta viagem te faz sentir, sem ter sequer de ir a lado algum.


Talvez a viagem te leve a sítios escuros. Observa-os, sem julgamento e segue viagem. Nota que momentos como este são uma limpeza interior.


Tanta coisa boa e má acontece nas nossas vidas constantemente. É necessário haver momentos de sossego para as processar devidamente.


Coragem.


Aproveita o momento para te debruçar sobre as tuas verdades. Para questionar as tuas escolhas. As tuas prioridades. Aproveita para parar e aprender a respirar, a tomar o espaço que é teu por direito, para definir novos padrões. Os teus padrões.


Não tenhas medo de ficar sozinha com as nuvens, o vento ou as pedras. Observa, leva o teu tempo. Aprende a ouvir o teu corpo, dá-lhe o respeito e carinho que merece pois trouxe-te até aqui.


Faz questões e sê paciente. Dá tempo ao tempo.


‘O que espero de mim própria é meu para deixar fluir. Com tempo e dedicação a mim mesma.’


Dolce fare niente, a arte de saber estar - sem ter de ser.


Em gratidão,


Mariana